domingo, 2 de março de 2014

LIVRO 1 – 2ª PARTE – CAP. I

Livro 1 – 2ª Parte : O Mágico – Cap. I



O encontro inesperado e misterioso com Anastácio e as visitas que eu fazia àquela propriedade, onde respirávamos histórias e presenciávamos o seu desabrochar em forma de flores atraentes e perfumadas na manhã seguinte, representavam o passo maior que eu conseguira dar em relação à magia.
O meu coração sempre buscara algo que estivesse além desta realidade. As histórias que eu contava prazerosamente não bastavam para satisfazer a minha sede cada vez mais intensa de fantasia. Não se pode acreditar em algo que só existe na imaginação das pessoas. Contar histórias, sim. Acreditar nelas, não.
Quando eu era chamado para exercer o meu ofício de contador de histórias em festas infantis, sempre havia a oportunidade de assistir às apresentações dos mais diversos números de mágica. Para expressar a minha frustração em relação à mágica, criei uma teoria: “Há mágica na magia, mas não há magia na mágica.” Você dirá que também fabrico ilusões; entretanto, nas histórias, há magia e esperança.
Anos mais tarde, porém, fui obrigado a repensar a minha teoria de não haver magia na mágica. Meus olhos se abriram durante uma apresentação que, sem sombra de dúvida, era uma demonstração de magia. Não houve preparação alguma: ofereci-me para ser o assistente do mágico e posso assegurar que não houve preparação alguma. O que aparecia surgia do nada, e o que sumia ao nada voltava. Não havia uma caixa com fundo falso, cortinas, objetos escondidos nas mangas e nos bolsos... Não havia distrações... Não havia truques de espécie alguma... Havia apenas uma varinha que me deixava intrigado toda vez que se agitava no ar, embalada por palavras inaudíveis.
O mágico era de poucos amigos e de pouca conversa. Cheguei mesmo a considerá-lo arrogante e intratável. Apesar disso, o meu sonho de contemplar a magia na mágica realizava-se, e eu estava fascinado. A ocasião era uma festa de dez anos. Ele fez o seu trabalho, e eu fiz o meu. Mal conversamos, e ele foi embora sem se despedir. A pedido do aniversariante, eu fiquei um pouco mais para contar uma última história. Eu já estava de saída quando o menino comentou:
– O mágico esqueceu a cartola.
Reconheci a oportunidade e decidi aproveitá-la. Perguntei ao garoto o endereço do mágico e me ofereci para entregar-lhe o chapéu.
A casa do mágico ficava a dois quarteirões e não tinha nada de especial. O mágico não me agradeceu o favor. Apanhou a cartola e entrou, fechando a porta atrás de si. Eu fiquei parado feito uma estátua, pensando em sua falta de... Algo pulou em meu bolso e interrompeu o meu pensamento. Receoso, imaginando tratar-se de uma brincadeira de mau gosto dos meninos da festa, coloquei a mão no bolso para verificar o que era. Havia apenas um cartão com os dizeres: “Encontre-me na entrada da floresta à meia-noite.” Senti as pernas tremerem. Um sapo teria me causado menos pavor.
Passei o resto do dia imaginando como seria aquele encontro. Não consegui jantar. Eu sentia náusea só de pensar em atravessar a estrada para entrar na floresta. Gosto de florestas apenas nas histórias. Na vida real, porém, elas me dão calafrios. E por que à meia-noite?... Certamente aquele sujeito estava zombando de mim. “E se ele não aparecer?” Essa era a pergunta que eu fazia a mim mesmo já na entrada da floresta. Minhas pernas estavam bambas, e o meu coração quase saltou pela boca no momento em que ouvi o pio de uma coruja. Se o mágico não me tivesse segurado pelo braço, não me envergonho em dizer que teria saído correndo.
Um pouco mais calmo, ainda sentindo sua mão apertando o meu braço, virei a cabeça para certificar-me de que era ele realmente e exclamei:
– Pode me soltar! Combinamos de nos encontrar na estrada, e nada fará com que eu entre na floresta.

Com a nítida intenção de me aborrecer, ele disse:
– Não combinamos coisa alguma. Eu só lhe enviei uma mensagem. Você veio porque quis e poderá ir embora quando desejar. Agora, vai entrar ou vai continuar aí parado?
Eu fui obrigado a confessar:
– Florestas me dão calafrios especialmente à noite. Já ouvi e contei tantas histórias sobre florestas que, na minha imaginação, elas estão povoadas com todos os tipos de seres.
Para assustar-me ainda mais, ele disse em tom enigmático:
– Pois a sua imaginação não conhece a milésima parte deles. Não consegue ver os olhos curiosos e horrendos que nos espreitam por detrás das folhas? Há perigo e mistério em cada canto...

Ele não conseguiu continuar, porque começou a rir. Depois, retomando seu mau humor, perguntou irônico:
– Está decepcionado? Esperava que eu inventasse histórias para entretê-lo? Que espécie de contador de histórias é você? É uma pena eu não ter um espelho para você ver a cara que faz quando está com medo. Ou eu tenho?!... Veja só: apareceu um em meu bolso.
Odeio quando caçoam de mim. Para vingar-me de seu sarcasmo, eu disse:
– Também não estamos aqui para você exibir os seus truques.
Surpreendi-me quando o ouvi dizer:
– Você tem razão: estamos perdendo um tempo precioso. Siga-me; quero mostrar-lhe o meu verdadeiro lar.
Que verdadeiro lar seria aquele? Enquanto caminhávamos, folhas úmidas e galhos pontudos esbarravam no meu rosto e nas minhas roupas, e eu tremia com receio de me perder naquela escuridão. Quando dei por mim, estávamos diante de uma árvore que eu não conseguia enxergar, e teria ido de encontro a ela se ele não tivesse gritado:
– Pare. Há uma árvore enorme bem à sua frente. Sinta-a com as mãos. Contorne-a. Ela precisa conhecê-lo para deixá-lo entrar.
Aquilo mais parecia um ritual, e eu não saberia dizer quantas vezes fui obrigado a caminhar ao redor da árvore, abraçando-a, apalpando-a, até que, para o meu desespero, o meu braço ficou preso no tronco. Eu gritava feito louco:
– Meu braço! Árvore maldita, solte o meu braço!
Procurando acalmar-me, o mágico disse:
– Está tudo bem. Feche os olhos e entre. Ela aceitou a sua presença, e a barreira invisível já foi removida.
O mágico estava certo. Quando eu respirei profundamente e caminhei de encontro à árvore, ela não colocou a menor resistência. Ele também já estava dentro dela quando murmurei lentamente:
– Eu estou dentro da árvore! Nós estamos dentro da árvore! Como isso é possível?!
Ele exclamou com a maior naturalidade:
– O tronco é oco!
Revesti-me de impaciência ao exclamar:
– Não banque o espirituoso! A questão é: como atravessamos o tronco?
Ele respondeu calmamente:
– A minha árvore se abriu para que pudéssemos entrar. Está com fome? Siga-me. Cuidado com os degraus. Nos cômodos subterrâneos, há bastante iluminação, conforto e tranquilidade. Aqui não há nada a temer.
Cansado de esperar que eu me servisse da comida que estava sobre a mesa, ele disse:
– Eu deveria ter imaginado que o seu medo estragaria o seu apetite. Talvez consiga comer mais tarde. Também há algo em meu interior que me rouba o prazer de tudo, inclusive, de uma boa refeição.
Eu estava quieto demais, e o meu silêncio parecia incomodá-lo mais do que as minhas perguntas. Ele olhava para mim, imaginando que a minha curiosidade fosse jorrar a qualquer momento. Mas eu não conseguia raciocinar adequadamente: os meus pensamentos pareciam as argolas soltas de uma corrente que acabara de se quebrar. Não achei a menor graça quando ele comentou:
– A sua língua deve ter ficado do lado de fora. Caso contrário, você já teria me perguntado o que rouba o meu prazer.
Eu usei de toda a sinceridade quando disse:
– Não estou interessado. Só o que desejo saber é se conseguirei sair daqui algum dia.
Ele comentou:
– A minha árvore bem que poderia mantê-lo prisioneiro, porque você me diverte e olha que há décadas eu não me divertia tanto!
Mal-humorado, respondi:
– Ria! Pode se divertir o quanto quiser! Amanhã, quando o dia clarear, encontrarei um meio de sair daqui. E quer saber quem levará a melhor?
Surpreendi-me quando o ouvi exclamar:
– Crisélia!... Ela sempre leva a melhor, e restam apenas sete meses...
O mágico conseguira acender a minha curiosidade e sorriu tristemente quando me ouviu perguntar:
– Quem é Crisélia? Você a ama?
Com o olhar perdido em lembranças, ele afirmou:
– Muitíssimo, embora ela tenha jurado que Anabel e eu nunca mais tornaríamos a nos encontrar. Já se passaram sessenta e cinco anos, quatro meses e nove dias desde a última vez em que os meus olhos beberam da doçura dos olhos de Anabel.
Imagine só! Eu fiquei perdido, tentando repassar na minha mente o número de anos, meses e dias que o mágico mencionara. Tudo começou a fazer sentido: ele não era um mágico e sim um mago disfarçado. Lembrei-me dos sete meses e arrisquei a pergunta:
– Se já faz tanto tempo que estão separados, por que os próximos sete meses são tão relevantes?
O mago respondeu:
– Daqui a sete meses, a minha árvore mudará de lugar, e eu não sei aonde ela me levará. Isso sempre acontece. Ela não fica mais do que dezessete meses em um mesmo local. Por que continuar se Anabel não estará lá?... Ela nunca está. Não há esperança.
Sensibilizado com o seu sofrimento, perguntei:
– Por que não me diz como posso ajudá-lo? Você não teria me trazido aqui e exposto o seu segredo se não houvesse uma razão.
Ele exclamou:
– E não há! Talvez eu estivesse me sentindo muito solitário e precisasse desabafar com alguém!... Você não conseguiria compreender o tormento que é viver essa vida dupla: parte na floresta e parte com aquelas pessoas que mais parecem estar dormindo do que vivendo. O meu mundo é aqui, mas eu preciso visitar os povoados para encontrar Anabel. Se existe alguma possibilidade do meu plano funcionar, é bem remota.
Perguntei entre surpreso e receoso:
– Que plano?!... Não me diga que faço parte dele!
Ele afirmou:
– O sucesso do meu plano dependerá de seu empenho.
Exclamei:
– Você é maluco! Primeiro afirma que me trouxe para cá sem motivo; depois menciona um plano do qual eu faço parte, mas não tenho conhecimento algum!...
O mago, para confundir-me ainda mais, disse:
– Arquitetei um plano no qual você seria o instrumento que eu usaria para encontrar Anabel e trazê-la de volta. Agora vem a parte em que você acertou em cheio: sou maluco, o plano é inútil, e eu não deveria ter revelado o meu segredo.
Arrisquei afirmar:
– Modestamente, considero-me a sua melhor opção. Só não compreendo como poderia tornar-me um instrumento em sua busca.
Pela primeira vez, pude observar uma mudança no olhar e na expressão do mago. Ele parecia ter abandonado todas as máscaras e subterfúgios quando disse:
– Talvez eu não seja maluco, o meu plano não seja descartável, e trazê-lo aqui tenha sido a melhor decisão que já tomei. Meu nome é Eliel. Viaje para vários lugares e conte a minha história. Diga que, em muitas florestas, existe sempre uma única árvore, habitada pelo mesmo elfo que chora de saudade.
Embora eu tenha gostado muito, não consegui evitar a pergunta:
– É só isso?... Quero dizer, as pessoas desejarão saber como a história continua.
Balançando a cabeça em sinal de desacordo, ele declarou:
 – É o suficiente. Agora precisamos dormir, mas antes terá que se alimentar.

Sisi Marques