segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 – PRIMEIRA PARTE – CAP. II

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. II
Anastácio esquadrinhou o rosto daquele desconhecido que não media esforços para atraí-lo com sua fala mansa. Perguntou a si mesmo que mal haveria em segui-lo se ele não parecia representar perigo algum. Após breve e silenciosa reflexão, Anastácio aventurou-se a dizer:
– Está bem. Estou disposto a acompanhá-lo.
Exibindo um sorriso vitorioso, o homem disse:
– O carro está estacionado aqui perto; meu motorista nos levará até lá.
Após duas horas de viagem, o carro estacionou em frente a um terreno que pareceria abandonado se não fosse pela cerca, o portão, o banco e um chalé bem-cuidados. Quanto à terra, parecia seca, dura, inapropriada a qualquer tipo de cultivo. Dando vazão à sua raiva e frustração, Anastácio afirmou:
– Se me trouxe aqui para me empurrar esta terra improdutiva, perdeu o seu tempo porque não costumo jogar fora o dinheiro que herdei do meu pai. A resposta é não. Não comprarei esta propriedade sem valor no meio do nada!
Aparentemente confuso pela inesperada reação, o homem disse:
– Não sou um vendedor e não estou tentando empurrar-lhe coisa alguma. Só lhe peço que inspire o ar deste lugar com o coração. Sinta como a atmosfera está repleta de histórias. Sente-se naquele banco. Feche os olhos. Concentre-se e atraia uma delas. Deixe-a entrar em seu coração para que ela possa lhe revelar o seu aroma e a sua delicada trama.
Anastácio já começava a odiar-se por ter se deixado enganar quando, de repente, algo inesperado aconteceu: uma deliciosa brisa envolveu o seu coração, e ele se sentiu preso num doce devaneio. Fragmentos de uma história nova aglutinaram-se em sua mente, e o seu único desejo era: dar-lhe vida. Sem hesitar, ele sentou no banco, abriu o caderno de anotações, apanhou a caneta do bolso e começou a escrever.
Quando Anastácio terminou de reunir os pedaços da história, leu-a prazerosamente e, só então, olhou ao redor e surpreendeu-se ao verificar que já era noite, e não havia nem sinal do homem que o trouxera ali. Caminhou até o chalé e teve outra surpresa: a dispensa estava cheia; e o asseio, a disposição dos móveis e a quietude daquele lugar pareciam convidá-lo a estabelecer-se ali por alguns dias.

Na manhã seguinte, uma nova e agradabilíssima surpresa deixou-o de boca aberta e olhos arregalados: bem próximo ao banco, havia um canteiro de terra fofa e, nessa terra macia e úmida que aparecera do nada, despertara uma flor. Aproximando-se da flor, Anastácio pôde sentir sua fragrância e ficou extasiado ao perceber que era o mesmo aroma da brisa que o envolvera antes que ele começasse a escrever a história. Em seu coração, ele guardava a certeza de que a sua história dera origem àquele canteiro e àquela flor. Novas histórias viriam, e mais flores nasceriam naquele jardim.
Sisi Marques

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