domingo, 9 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 - 1ª PARTE - CAP. IV

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. IV


Anastácio, ao acordar, sentiu falta da atmosfera que envolvia aquele lugar mágico. Queria voltar o mais rápido possível, mas primeiro teria que se desvencilhar daquele compromisso insípido. Deveria estar curioso para saber quem o aguardava próximo ao chafariz da praça; entretanto, o único sentimento que desabrochava em seu coração era a necessidade de respirar e compor novas histórias. Depois desse encontro, mudar-se-ia definitivamente para aquele lugar.
Por volta das 9h, Anastácio chegou à praça e sentou-se ao meu lado no banco próximo ao chafariz. Ele olhava em minha direção com o semblante carregado e só faltou pedir-me que deixasse o banco e fosse sentar em qualquer outro lugar. Minutos depois, comentou:
– Eu espero alguém. E você, o que faz aqui sem o seu caderno de anotações?
Uma pergunta direta merecia uma resposta igualmente direta:
– Também espero alguém.
 Após consultar o relógio várias vezes, ele teceu novo comentário:
 – Uma namorada, eu suponho. É por esse motivo que evito as mulheres. Odeio esperar, e elas parecem se divertir ao nos deixar esperando.
Foi a minha vez de dizer:
– Antes estivesse aqui aguardando a chegada de uma bela jovem. Receio ter sido vítima de um trote. Um sujeito maluco ligou para a minha casa ontem, perguntando se eu conhecia um senhor que o levou a uma propriedade que ficava a duas horas daqui. Tirando isso, não falava coisa com coisa, e eu não consegui entender mais nada.
A expressão inesperada em seu rosto deixou-me preocupado. Perguntei-lhe:
– O que há? Não está se sentindo bem?
Ele sorriu antes de perguntar:
– Qual é o número do seu telefone?
Tudo começou a fazer sentido, e eu exclamei:
– Não me diga que foi você quem ligou e marcou este encontro!...
Anastácio revelou:
– O homem que você afirma não conhecer pediu que me entregassem o número de seu telefone quando eu fosse ao cartório. Ele certamente esperava que nos encontrássemos por alguma razão. Ouça, engana-se ao dizer que não o conhece. Você já o viu nesta praça há alguns dias enquanto conversávamos. Você até mesmo parou de escrever para nos observar. Não se lembra?
Eu olhava para ele em busca das palavras que usaria para não ofendê-lo ao ter que desmenti-lo. Finalmente fui obrigado a dizer:
– Eu parei de escrever na última vez em que pude observá-lo fazendo anotações, porque achei interessante o modo como você atuava para caracterizar melhor o seu personagem. E posso afirmar que não havia ninguém ao seu lado: era apenas você e a sua imaginação.
Com o olhar incandescente, ele exclamou:
– Está zombando de mim!
Desconcertado, perguntei:
– Por que eu faria isso? Ouça, eu moro aqui perto. Gostaria de ir à minha casa para que pudéssemos conversar com mais privacidade?
Balançando a cabeça negativamente, ele disse:
– Não. Você irá à minha casa para que eu possa provar-lhe que não estou louco. Venha, posso mostrar-lhe as chaves, a planta, a escritura... Eu não imaginei tudo aquilo. Não posso ter imaginado!

Sisi Marques

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