quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 - 1ª PARTE - CAP. III

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. III
Os dias se passaram velozmente, e as manhãs traziam as flores, frutos da inspiração contida nas histórias. Anastácio jamais se sentiu tão bem em toda a sua vida. Pensava estar sonhando e receava acordar. Cada flor possuía uma fragrância semelhante ao aroma da brisa que o envolvia antes de começar a escrever determinada história, e esta parecia ser a parte melhor: cada flor representava uma história, cada flor era única, e ele as amava. Como poderia deixá-las se desejava ardentemente que se multiplicassem? Lembrou-se do homem e sentiu remorso por tê-lo tratado tão mal. Precisava desculpar-se e decidiu ir ao cartório mais próximo para verificar a quem pertencia aquela propriedade.


 Mais surpresas aguardavam-no quando ele chegou ao cartório pedindo informações sobre o misterioso proprietário. Apanhando uma pasta com vários documentos, o funcionário respondeu:
 – A propriedade atualmente pertence ao “Sr. Anastácio”.
 Você já deve ter imaginado que não foi esse o nome que o funcionário do cartório mencionou. Na escritura da propriedade, estava escrito o seu nome verdadeiro. O funcionário do cartório não pareceu surpreso ao ouvi-lo dizer:
– Certamente houve um terrível engano. A propriedade não é minha; mas, sem sombra de dúvida, eu gostaria de comprá-la. Como posso entrar em contato com o proprietário?
 Pacientemente, o funcionário do cartório explicou:
 – Se o senhor é o Sr. Anastácio, basta apresentar-me um documento que comprove sua identidade e assinar aqui, para que eu possa entregar-lhe as chaves e a escritura. Não lhe será cobrada taxa alguma, porque todas as despesas já foram pagas no ato da doação. Caso o senhor não seja o Sr. Anastácio e esteja interessado em adquirir a propriedade, deverá entrar em contato com o Sr. Anastácio, porque só ele poderá autorizar a venda.
Com as mãos trêmulas, enquanto mostrava seu documento ao funcionário e preparava-se para assinar a escritura, Anastácio murmurou:
 – Eu não compreendo como posso ser dono da propriedade se nada paguei por ela.
 Bem-humorado, o funcionário exclamou:
– É realmente impressionante! Já ouvi dizer, e os documentos comprovam que o atual doador também não pagou nada por ela, e nem mesmo os dois proprietários anteriores. Essa propriedade enorme é sempre doada por razões desconhecidas.
 Despretensiosamente, Anastácio comentou:
 – Ela não é tão grande assim. Trata-se apenas de um terreno, aparentemente sem valor, com um chalé. Para mim, no entanto, ela tem valor inestimável.
 Discordando respeitosamente, o funcionário balançou a cabeça para os lados, antes de dizer:
 – Talvez o senhor não tenha tido a oportunidade de conhecer a propriedade como um todo. Além desse terreno que mencionou, existem outros sem construção alguma. Mas a satisfação maior virá de três terrenos cujas casas foram cercadas por agradáveis jardins. Se desejar, poderei acompanhá-lo até lá para lhe mostrar toda a propriedade. De qualquer modo, juntamente com a escritura, estou lhe entregando a planta atualizada e o molho de chaves.
 Um pouco atordoado pela avalanche de surpresas, Anastácio disse:
 – Muito obrigado, mas creio que não será necessário. Eu só gostaria de poder agradecer ao meu benfeitor. Não teria ele deixado algum endereço ou telefone para contato?
 O funcionário, solícito, apresentou um cartão e desculpou-se:
 – Perdoe-me o esquecimento. Ele deixou este cartão com um número de telefone para que lhe fosse entregue.
 Com o coração descompassado, Anastácio perguntou:
 – Eu poderia usar o telefone?
 O funcionário consentiu, e Anastácio segurou o fone e discou o número com as mãos trêmulas. Percebeu logo que a pessoa do outro lado da linha não conhecia o homem que lhe entregara aquele maravilhoso presente. Mas, ainda assim, ficou curioso em descobrir qual era a relação entre os dois. Certamente algum motivo haveria para aquele número de telefone ter chegado às suas mãos. Precisava desvendar o mistério e, para isso, marcou um encontro com o homem que, sem saber o que pensar, sem saber o que dizer, o ouvia pacientemente.
 Foi com imenso pesar que Anastácio, ao sair do cartório, em vez de retornar ao seu refúgio, dirigiu-se à sua casa, que ficava próxima à praça na qual ele marcara o encontro para a manhã seguinte.
Sisi Marques

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