sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 – 1ª PARTE - CAP. V

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. V                                                               
Acompanhei Anastácio à sua casa e     pude verificar que a planta e a escritura eram autênticas. Ele estava satisfeito, e o seu entusiasmo era tão grande que ele parecia uma criança narrando o que lhe acontecera nos últimos dias.


 Anastácio pediu à empregada que nos servisse um lanche e, depois, conduziu-me à garagem, para que ele pudesse tirar o carro para levar-nos à propriedade. Aquele era o início de uma grande e sincera amizade. Quando chegamos ao terreno, o meu único desejo era contemplar as poucas flores que ele afirmava terem desabrochado num canteiro recém-formado. E lá estavam elas! Eram lindas, perfeitas! E cada uma possuía um perfume diferente, sedutor!
 Deliciando-se com o meu entusiasmo, Anastácio disse:
 – Você também poderá criar as suas próprias flores e ajudar-me a embelezar o jardim. Basta abrir o seu coração para a atmosfera deste lugar e inspirar uma história. Lembre-se: você precisa respirar com o coração.
 Eu estava feliz. Sentia-me leve e continuava a rir quando algo muito estranho aconteceu: um calor agradável envolveu o meu coração, que pareceu abrir-se como uma flor para acolhê-lo. Na minha mente, partes de uma história, como se fossem peças de um enorme quebra-cabeça, começavam a se juntar. Retirei do bolso um bloco de anotações e uma caneta, sentei no banco e comecei a escrever. Foi um momento perfeito. O tempo passou com a rapidez do vento e, quando dei por mim, já era noite.
 Um aroma irresistível vinha do chalé e me convidava a entrar. Quando apareci à porta, Anastácio disse:
 – Entre e sirva-se. Você estava tão concentrado, que eu não quis incomodá-lo e vim aproveitar o tempo de outra forma. Perdoe-me se a refeição não estiver do seu agrado.
 Lavando as mãos, comentei:
 – Se a refeição estiver tão boa quanto o cheiro!... Não imaginei que gostasse de cozinhar.
 Sentando-se à mesa, Anastácio, procurando conter o seu entusiasmo, disse:
 – E não gosto, mas precisava ocupar-me de algum modo. Conte-me como foi a sensação de respirar sua primeira história neste lugar.
 Eu respondi sorrindo:
– Plena. Não existe outra forma de descrevê-la. Ouça, quando chegamos, eu tomei a liberdade de contar as flores. Você acredita que amanhã aparecerá mais uma?
Ele afirmou:
 – Certamente. E você estará aqui para vê-la. Está muito tarde para voltarmos. Amanhã, se você não tiver outro compromisso, eu gostaria que caminhasse comigo pela propriedade. Precisamos visitar os outros jardins. Você já se perguntou qual será a duração das flores?
 Respondi:
 – Para ser sincero, não. Mas posso arriscar um palpite.
 Anastácio incentivou-me a continuar:
 – Por favor, fale. Nada do que disser parecerá tolice. Somos amigos, e amigos têm a liberdade de dizer o que pensam. A propósito, daqui a uma semana haverá o Encontro Anual dos Contadores de Histórias. É uma boa ocasião para nos reencontrarmos. Só lhe peço sigilo, porque não podemos permitir que esta história venha à tona. Se algum dia você quiser contá-la, deverá ser como algo fictício; e, por favor, nunca mencione o meu verdadeiro nome. Se as pessoas acreditarem que é uma ficção, jamais procurarão o lugar. Agora me responda qual é o tempo de vida das flores que estamos ajudando a desabrochar.
 Aventurei-me a dizer:
 – Cada flor representa uma história. As histórias só morrem quando são esquecidas. Dessa forma, o esquecimento é a única erva daninha capaz de comprometer a saúde das flores. É o nosso dever contar as histórias para que elas não sejam esquecidas e as flores permaneçam sempre viçosas.
 Após alguns minutos de reflexão, Anastácio afirmou concordar com a minha teoria. O seu semblante estava sereno, e ele parecia satisfeito. Nada pode ser mais prazeroso a um contador de histórias do que se tornar o protagonista de uma história fascinante. Eu também estava felicíssimo. Talvez eu nem precisasse dizer que, na manhã seguinte, contemplei a minha flor com um prazer descomunal. É como Anastácio costumava dizer: “Só mesmo estando lá para saber como é agradável e revigorante respirar e cultivar histórias!”
 FIM DA 1ª PARTE (O CONTADOR DE HISTÓRIAS) DE
“REALIDADE MÁGICA - LIVRO 1”.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 - 1ª PARTE - CAP. IV

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. IV


Anastácio, ao acordar, sentiu falta da atmosfera que envolvia aquele lugar mágico. Queria voltar o mais rápido possível, mas primeiro teria que se desvencilhar daquele compromisso insípido. Deveria estar curioso para saber quem o aguardava próximo ao chafariz da praça; entretanto, o único sentimento que desabrochava em seu coração era a necessidade de respirar e compor novas histórias. Depois desse encontro, mudar-se-ia definitivamente para aquele lugar.
Por volta das 9h, Anastácio chegou à praça e sentou-se ao meu lado no banco próximo ao chafariz. Ele olhava em minha direção com o semblante carregado e só faltou pedir-me que deixasse o banco e fosse sentar em qualquer outro lugar. Minutos depois, comentou:
– Eu espero alguém. E você, o que faz aqui sem o seu caderno de anotações?
Uma pergunta direta merecia uma resposta igualmente direta:
– Também espero alguém.
 Após consultar o relógio várias vezes, ele teceu novo comentário:
 – Uma namorada, eu suponho. É por esse motivo que evito as mulheres. Odeio esperar, e elas parecem se divertir ao nos deixar esperando.
Foi a minha vez de dizer:
– Antes estivesse aqui aguardando a chegada de uma bela jovem. Receio ter sido vítima de um trote. Um sujeito maluco ligou para a minha casa ontem, perguntando se eu conhecia um senhor que o levou a uma propriedade que ficava a duas horas daqui. Tirando isso, não falava coisa com coisa, e eu não consegui entender mais nada.
A expressão inesperada em seu rosto deixou-me preocupado. Perguntei-lhe:
– O que há? Não está se sentindo bem?
Ele sorriu antes de perguntar:
– Qual é o número do seu telefone?
Tudo começou a fazer sentido, e eu exclamei:
– Não me diga que foi você quem ligou e marcou este encontro!...
Anastácio revelou:
– O homem que você afirma não conhecer pediu que me entregassem o número de seu telefone quando eu fosse ao cartório. Ele certamente esperava que nos encontrássemos por alguma razão. Ouça, engana-se ao dizer que não o conhece. Você já o viu nesta praça há alguns dias enquanto conversávamos. Você até mesmo parou de escrever para nos observar. Não se lembra?
Eu olhava para ele em busca das palavras que usaria para não ofendê-lo ao ter que desmenti-lo. Finalmente fui obrigado a dizer:
– Eu parei de escrever na última vez em que pude observá-lo fazendo anotações, porque achei interessante o modo como você atuava para caracterizar melhor o seu personagem. E posso afirmar que não havia ninguém ao seu lado: era apenas você e a sua imaginação.
Com o olhar incandescente, ele exclamou:
– Está zombando de mim!
Desconcertado, perguntei:
– Por que eu faria isso? Ouça, eu moro aqui perto. Gostaria de ir à minha casa para que pudéssemos conversar com mais privacidade?
Balançando a cabeça negativamente, ele disse:
– Não. Você irá à minha casa para que eu possa provar-lhe que não estou louco. Venha, posso mostrar-lhe as chaves, a planta, a escritura... Eu não imaginei tudo aquilo. Não posso ter imaginado!

Sisi Marques

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 - 1ª PARTE - CAP. III

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. III
Os dias se passaram velozmente, e as manhãs traziam as flores, frutos da inspiração contida nas histórias. Anastácio jamais se sentiu tão bem em toda a sua vida. Pensava estar sonhando e receava acordar. Cada flor possuía uma fragrância semelhante ao aroma da brisa que o envolvia antes de começar a escrever determinada história, e esta parecia ser a parte melhor: cada flor representava uma história, cada flor era única, e ele as amava. Como poderia deixá-las se desejava ardentemente que se multiplicassem? Lembrou-se do homem e sentiu remorso por tê-lo tratado tão mal. Precisava desculpar-se e decidiu ir ao cartório mais próximo para verificar a quem pertencia aquela propriedade.


 Mais surpresas aguardavam-no quando ele chegou ao cartório pedindo informações sobre o misterioso proprietário. Apanhando uma pasta com vários documentos, o funcionário respondeu:
 – A propriedade atualmente pertence ao “Sr. Anastácio”.
 Você já deve ter imaginado que não foi esse o nome que o funcionário do cartório mencionou. Na escritura da propriedade, estava escrito o seu nome verdadeiro. O funcionário do cartório não pareceu surpreso ao ouvi-lo dizer:
– Certamente houve um terrível engano. A propriedade não é minha; mas, sem sombra de dúvida, eu gostaria de comprá-la. Como posso entrar em contato com o proprietário?
 Pacientemente, o funcionário do cartório explicou:
 – Se o senhor é o Sr. Anastácio, basta apresentar-me um documento que comprove sua identidade e assinar aqui, para que eu possa entregar-lhe as chaves e a escritura. Não lhe será cobrada taxa alguma, porque todas as despesas já foram pagas no ato da doação. Caso o senhor não seja o Sr. Anastácio e esteja interessado em adquirir a propriedade, deverá entrar em contato com o Sr. Anastácio, porque só ele poderá autorizar a venda.
Com as mãos trêmulas, enquanto mostrava seu documento ao funcionário e preparava-se para assinar a escritura, Anastácio murmurou:
 – Eu não compreendo como posso ser dono da propriedade se nada paguei por ela.
 Bem-humorado, o funcionário exclamou:
– É realmente impressionante! Já ouvi dizer, e os documentos comprovam que o atual doador também não pagou nada por ela, e nem mesmo os dois proprietários anteriores. Essa propriedade enorme é sempre doada por razões desconhecidas.
 Despretensiosamente, Anastácio comentou:
 – Ela não é tão grande assim. Trata-se apenas de um terreno, aparentemente sem valor, com um chalé. Para mim, no entanto, ela tem valor inestimável.
 Discordando respeitosamente, o funcionário balançou a cabeça para os lados, antes de dizer:
 – Talvez o senhor não tenha tido a oportunidade de conhecer a propriedade como um todo. Além desse terreno que mencionou, existem outros sem construção alguma. Mas a satisfação maior virá de três terrenos cujas casas foram cercadas por agradáveis jardins. Se desejar, poderei acompanhá-lo até lá para lhe mostrar toda a propriedade. De qualquer modo, juntamente com a escritura, estou lhe entregando a planta atualizada e o molho de chaves.
 Um pouco atordoado pela avalanche de surpresas, Anastácio disse:
 – Muito obrigado, mas creio que não será necessário. Eu só gostaria de poder agradecer ao meu benfeitor. Não teria ele deixado algum endereço ou telefone para contato?
 O funcionário, solícito, apresentou um cartão e desculpou-se:
 – Perdoe-me o esquecimento. Ele deixou este cartão com um número de telefone para que lhe fosse entregue.
 Com o coração descompassado, Anastácio perguntou:
 – Eu poderia usar o telefone?
 O funcionário consentiu, e Anastácio segurou o fone e discou o número com as mãos trêmulas. Percebeu logo que a pessoa do outro lado da linha não conhecia o homem que lhe entregara aquele maravilhoso presente. Mas, ainda assim, ficou curioso em descobrir qual era a relação entre os dois. Certamente algum motivo haveria para aquele número de telefone ter chegado às suas mãos. Precisava desvendar o mistério e, para isso, marcou um encontro com o homem que, sem saber o que pensar, sem saber o que dizer, o ouvia pacientemente.
 Foi com imenso pesar que Anastácio, ao sair do cartório, em vez de retornar ao seu refúgio, dirigiu-se à sua casa, que ficava próxima à praça na qual ele marcara o encontro para a manhã seguinte.
Sisi Marques

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 – PRIMEIRA PARTE – CAP. II

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. II
Anastácio esquadrinhou o rosto daquele desconhecido que não media esforços para atraí-lo com sua fala mansa. Perguntou a si mesmo que mal haveria em segui-lo se ele não parecia representar perigo algum. Após breve e silenciosa reflexão, Anastácio aventurou-se a dizer:
– Está bem. Estou disposto a acompanhá-lo.
Exibindo um sorriso vitorioso, o homem disse:
– O carro está estacionado aqui perto; meu motorista nos levará até lá.
Após duas horas de viagem, o carro estacionou em frente a um terreno que pareceria abandonado se não fosse pela cerca, o portão, o banco e um chalé bem-cuidados. Quanto à terra, parecia seca, dura, inapropriada a qualquer tipo de cultivo. Dando vazão à sua raiva e frustração, Anastácio afirmou:
– Se me trouxe aqui para me empurrar esta terra improdutiva, perdeu o seu tempo porque não costumo jogar fora o dinheiro que herdei do meu pai. A resposta é não. Não comprarei esta propriedade sem valor no meio do nada!
Aparentemente confuso pela inesperada reação, o homem disse:
– Não sou um vendedor e não estou tentando empurrar-lhe coisa alguma. Só lhe peço que inspire o ar deste lugar com o coração. Sinta como a atmosfera está repleta de histórias. Sente-se naquele banco. Feche os olhos. Concentre-se e atraia uma delas. Deixe-a entrar em seu coração para que ela possa lhe revelar o seu aroma e a sua delicada trama.
Anastácio já começava a odiar-se por ter se deixado enganar quando, de repente, algo inesperado aconteceu: uma deliciosa brisa envolveu o seu coração, e ele se sentiu preso num doce devaneio. Fragmentos de uma história nova aglutinaram-se em sua mente, e o seu único desejo era: dar-lhe vida. Sem hesitar, ele sentou no banco, abriu o caderno de anotações, apanhou a caneta do bolso e começou a escrever.
Quando Anastácio terminou de reunir os pedaços da história, leu-a prazerosamente e, só então, olhou ao redor e surpreendeu-se ao verificar que já era noite, e não havia nem sinal do homem que o trouxera ali. Caminhou até o chalé e teve outra surpresa: a dispensa estava cheia; e o asseio, a disposição dos móveis e a quietude daquele lugar pareciam convidá-lo a estabelecer-se ali por alguns dias.

Na manhã seguinte, uma nova e agradabilíssima surpresa deixou-o de boca aberta e olhos arregalados: bem próximo ao banco, havia um canteiro de terra fofa e, nessa terra macia e úmida que aparecera do nada, despertara uma flor. Aproximando-se da flor, Anastácio pôde sentir sua fragrância e ficou extasiado ao perceber que era o mesmo aroma da brisa que o envolvera antes que ele começasse a escrever a história. Em seu coração, ele guardava a certeza de que a sua história dera origem àquele canteiro e àquela flor. Novas histórias viriam, e mais flores nasceriam naquele jardim.
Sisi Marques