domingo, 2 de março de 2014

LIVRO 1 – 2ª PARTE – CAP. I

Livro 1 – 2ª Parte : O Mágico – Cap. I



O encontro inesperado e misterioso com Anastácio e as visitas que eu fazia àquela propriedade, onde respirávamos histórias e presenciávamos o seu desabrochar em forma de flores atraentes e perfumadas na manhã seguinte, representavam o passo maior que eu conseguira dar em relação à magia.
O meu coração sempre buscara algo que estivesse além desta realidade. As histórias que eu contava prazerosamente não bastavam para satisfazer a minha sede cada vez mais intensa de fantasia. Não se pode acreditar em algo que só existe na imaginação das pessoas. Contar histórias, sim. Acreditar nelas, não.
Quando eu era chamado para exercer o meu ofício de contador de histórias em festas infantis, sempre havia a oportunidade de assistir às apresentações dos mais diversos números de mágica. Para expressar a minha frustração em relação à mágica, criei uma teoria: “Há mágica na magia, mas não há magia na mágica.” Você dirá que também fabrico ilusões; entretanto, nas histórias, há magia e esperança.
Anos mais tarde, porém, fui obrigado a repensar a minha teoria de não haver magia na mágica. Meus olhos se abriram durante uma apresentação que, sem sombra de dúvida, era uma demonstração de magia. Não houve preparação alguma: ofereci-me para ser o assistente do mágico e posso assegurar que não houve preparação alguma. O que aparecia surgia do nada, e o que sumia ao nada voltava. Não havia uma caixa com fundo falso, cortinas, objetos escondidos nas mangas e nos bolsos... Não havia distrações... Não havia truques de espécie alguma... Havia apenas uma varinha que me deixava intrigado toda vez que se agitava no ar, embalada por palavras inaudíveis.
O mágico era de poucos amigos e de pouca conversa. Cheguei mesmo a considerá-lo arrogante e intratável. Apesar disso, o meu sonho de contemplar a magia na mágica realizava-se, e eu estava fascinado. A ocasião era uma festa de dez anos. Ele fez o seu trabalho, e eu fiz o meu. Mal conversamos, e ele foi embora sem se despedir. A pedido do aniversariante, eu fiquei um pouco mais para contar uma última história. Eu já estava de saída quando o menino comentou:
– O mágico esqueceu a cartola.
Reconheci a oportunidade e decidi aproveitá-la. Perguntei ao garoto o endereço do mágico e me ofereci para entregar-lhe o chapéu.
A casa do mágico ficava a dois quarteirões e não tinha nada de especial. O mágico não me agradeceu o favor. Apanhou a cartola e entrou, fechando a porta atrás de si. Eu fiquei parado feito uma estátua, pensando em sua falta de... Algo pulou em meu bolso e interrompeu o meu pensamento. Receoso, imaginando tratar-se de uma brincadeira de mau gosto dos meninos da festa, coloquei a mão no bolso para verificar o que era. Havia apenas um cartão com os dizeres: “Encontre-me na entrada da floresta à meia-noite.” Senti as pernas tremerem. Um sapo teria me causado menos pavor.
Passei o resto do dia imaginando como seria aquele encontro. Não consegui jantar. Eu sentia náusea só de pensar em atravessar a estrada para entrar na floresta. Gosto de florestas apenas nas histórias. Na vida real, porém, elas me dão calafrios. E por que à meia-noite?... Certamente aquele sujeito estava zombando de mim. “E se ele não aparecer?” Essa era a pergunta que eu fazia a mim mesmo já na entrada da floresta. Minhas pernas estavam bambas, e o meu coração quase saltou pela boca no momento em que ouvi o pio de uma coruja. Se o mágico não me tivesse segurado pelo braço, não me envergonho em dizer que teria saído correndo.
Um pouco mais calmo, ainda sentindo sua mão apertando o meu braço, virei a cabeça para certificar-me de que era ele realmente e exclamei:
– Pode me soltar! Combinamos de nos encontrar na estrada, e nada fará com que eu entre na floresta.

Com a nítida intenção de me aborrecer, ele disse:
– Não combinamos coisa alguma. Eu só lhe enviei uma mensagem. Você veio porque quis e poderá ir embora quando desejar. Agora, vai entrar ou vai continuar aí parado?
Eu fui obrigado a confessar:
– Florestas me dão calafrios especialmente à noite. Já ouvi e contei tantas histórias sobre florestas que, na minha imaginação, elas estão povoadas com todos os tipos de seres.
Para assustar-me ainda mais, ele disse em tom enigmático:
– Pois a sua imaginação não conhece a milésima parte deles. Não consegue ver os olhos curiosos e horrendos que nos espreitam por detrás das folhas? Há perigo e mistério em cada canto...

Ele não conseguiu continuar, porque começou a rir. Depois, retomando seu mau humor, perguntou irônico:
– Está decepcionado? Esperava que eu inventasse histórias para entretê-lo? Que espécie de contador de histórias é você? É uma pena eu não ter um espelho para você ver a cara que faz quando está com medo. Ou eu tenho?!... Veja só: apareceu um em meu bolso.
Odeio quando caçoam de mim. Para vingar-me de seu sarcasmo, eu disse:
– Também não estamos aqui para você exibir os seus truques.
Surpreendi-me quando o ouvi dizer:
– Você tem razão: estamos perdendo um tempo precioso. Siga-me; quero mostrar-lhe o meu verdadeiro lar.
Que verdadeiro lar seria aquele? Enquanto caminhávamos, folhas úmidas e galhos pontudos esbarravam no meu rosto e nas minhas roupas, e eu tremia com receio de me perder naquela escuridão. Quando dei por mim, estávamos diante de uma árvore que eu não conseguia enxergar, e teria ido de encontro a ela se ele não tivesse gritado:
– Pare. Há uma árvore enorme bem à sua frente. Sinta-a com as mãos. Contorne-a. Ela precisa conhecê-lo para deixá-lo entrar.
Aquilo mais parecia um ritual, e eu não saberia dizer quantas vezes fui obrigado a caminhar ao redor da árvore, abraçando-a, apalpando-a, até que, para o meu desespero, o meu braço ficou preso no tronco. Eu gritava feito louco:
– Meu braço! Árvore maldita, solte o meu braço!
Procurando acalmar-me, o mágico disse:
– Está tudo bem. Feche os olhos e entre. Ela aceitou a sua presença, e a barreira invisível já foi removida.
O mágico estava certo. Quando eu respirei profundamente e caminhei de encontro à árvore, ela não colocou a menor resistência. Ele também já estava dentro dela quando murmurei lentamente:
– Eu estou dentro da árvore! Nós estamos dentro da árvore! Como isso é possível?!
Ele exclamou com a maior naturalidade:
– O tronco é oco!
Revesti-me de impaciência ao exclamar:
– Não banque o espirituoso! A questão é: como atravessamos o tronco?
Ele respondeu calmamente:
– A minha árvore se abriu para que pudéssemos entrar. Está com fome? Siga-me. Cuidado com os degraus. Nos cômodos subterrâneos, há bastante iluminação, conforto e tranquilidade. Aqui não há nada a temer.
Cansado de esperar que eu me servisse da comida que estava sobre a mesa, ele disse:
– Eu deveria ter imaginado que o seu medo estragaria o seu apetite. Talvez consiga comer mais tarde. Também há algo em meu interior que me rouba o prazer de tudo, inclusive, de uma boa refeição.
Eu estava quieto demais, e o meu silêncio parecia incomodá-lo mais do que as minhas perguntas. Ele olhava para mim, imaginando que a minha curiosidade fosse jorrar a qualquer momento. Mas eu não conseguia raciocinar adequadamente: os meus pensamentos pareciam as argolas soltas de uma corrente que acabara de se quebrar. Não achei a menor graça quando ele comentou:
– A sua língua deve ter ficado do lado de fora. Caso contrário, você já teria me perguntado o que rouba o meu prazer.
Eu usei de toda a sinceridade quando disse:
– Não estou interessado. Só o que desejo saber é se conseguirei sair daqui algum dia.
Ele comentou:
– A minha árvore bem que poderia mantê-lo prisioneiro, porque você me diverte e olha que há décadas eu não me divertia tanto!
Mal-humorado, respondi:
– Ria! Pode se divertir o quanto quiser! Amanhã, quando o dia clarear, encontrarei um meio de sair daqui. E quer saber quem levará a melhor?
Surpreendi-me quando o ouvi exclamar:
– Crisélia!... Ela sempre leva a melhor, e restam apenas sete meses...
O mágico conseguira acender a minha curiosidade e sorriu tristemente quando me ouviu perguntar:
– Quem é Crisélia? Você a ama?
Com o olhar perdido em lembranças, ele afirmou:
– Muitíssimo, embora ela tenha jurado que Anabel e eu nunca mais tornaríamos a nos encontrar. Já se passaram sessenta e cinco anos, quatro meses e nove dias desde a última vez em que os meus olhos beberam da doçura dos olhos de Anabel.
Imagine só! Eu fiquei perdido, tentando repassar na minha mente o número de anos, meses e dias que o mágico mencionara. Tudo começou a fazer sentido: ele não era um mágico e sim um mago disfarçado. Lembrei-me dos sete meses e arrisquei a pergunta:
– Se já faz tanto tempo que estão separados, por que os próximos sete meses são tão relevantes?
O mago respondeu:
– Daqui a sete meses, a minha árvore mudará de lugar, e eu não sei aonde ela me levará. Isso sempre acontece. Ela não fica mais do que dezessete meses em um mesmo local. Por que continuar se Anabel não estará lá?... Ela nunca está. Não há esperança.
Sensibilizado com o seu sofrimento, perguntei:
– Por que não me diz como posso ajudá-lo? Você não teria me trazido aqui e exposto o seu segredo se não houvesse uma razão.
Ele exclamou:
– E não há! Talvez eu estivesse me sentindo muito solitário e precisasse desabafar com alguém!... Você não conseguiria compreender o tormento que é viver essa vida dupla: parte na floresta e parte com aquelas pessoas que mais parecem estar dormindo do que vivendo. O meu mundo é aqui, mas eu preciso visitar os povoados para encontrar Anabel. Se existe alguma possibilidade do meu plano funcionar, é bem remota.
Perguntei entre surpreso e receoso:
– Que plano?!... Não me diga que faço parte dele!
Ele afirmou:
– O sucesso do meu plano dependerá de seu empenho.
Exclamei:
– Você é maluco! Primeiro afirma que me trouxe para cá sem motivo; depois menciona um plano do qual eu faço parte, mas não tenho conhecimento algum!...
O mago, para confundir-me ainda mais, disse:
– Arquitetei um plano no qual você seria o instrumento que eu usaria para encontrar Anabel e trazê-la de volta. Agora vem a parte em que você acertou em cheio: sou maluco, o plano é inútil, e eu não deveria ter revelado o meu segredo.
Arrisquei afirmar:
– Modestamente, considero-me a sua melhor opção. Só não compreendo como poderia tornar-me um instrumento em sua busca.
Pela primeira vez, pude observar uma mudança no olhar e na expressão do mago. Ele parecia ter abandonado todas as máscaras e subterfúgios quando disse:
– Talvez eu não seja maluco, o meu plano não seja descartável, e trazê-lo aqui tenha sido a melhor decisão que já tomei. Meu nome é Eliel. Viaje para vários lugares e conte a minha história. Diga que, em muitas florestas, existe sempre uma única árvore, habitada pelo mesmo elfo que chora de saudade.
Embora eu tenha gostado muito, não consegui evitar a pergunta:
– É só isso?... Quero dizer, as pessoas desejarão saber como a história continua.
Balançando a cabeça em sinal de desacordo, ele declarou:
 – É o suficiente. Agora precisamos dormir, mas antes terá que se alimentar.

Sisi Marques

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 – 1ª PARTE - CAP. V

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. V                                                               
Acompanhei Anastácio à sua casa e     pude verificar que a planta e a escritura eram autênticas. Ele estava satisfeito, e o seu entusiasmo era tão grande que ele parecia uma criança narrando o que lhe acontecera nos últimos dias.


 Anastácio pediu à empregada que nos servisse um lanche e, depois, conduziu-me à garagem, para que ele pudesse tirar o carro para levar-nos à propriedade. Aquele era o início de uma grande e sincera amizade. Quando chegamos ao terreno, o meu único desejo era contemplar as poucas flores que ele afirmava terem desabrochado num canteiro recém-formado. E lá estavam elas! Eram lindas, perfeitas! E cada uma possuía um perfume diferente, sedutor!
 Deliciando-se com o meu entusiasmo, Anastácio disse:
 – Você também poderá criar as suas próprias flores e ajudar-me a embelezar o jardim. Basta abrir o seu coração para a atmosfera deste lugar e inspirar uma história. Lembre-se: você precisa respirar com o coração.
 Eu estava feliz. Sentia-me leve e continuava a rir quando algo muito estranho aconteceu: um calor agradável envolveu o meu coração, que pareceu abrir-se como uma flor para acolhê-lo. Na minha mente, partes de uma história, como se fossem peças de um enorme quebra-cabeça, começavam a se juntar. Retirei do bolso um bloco de anotações e uma caneta, sentei no banco e comecei a escrever. Foi um momento perfeito. O tempo passou com a rapidez do vento e, quando dei por mim, já era noite.
 Um aroma irresistível vinha do chalé e me convidava a entrar. Quando apareci à porta, Anastácio disse:
 – Entre e sirva-se. Você estava tão concentrado, que eu não quis incomodá-lo e vim aproveitar o tempo de outra forma. Perdoe-me se a refeição não estiver do seu agrado.
 Lavando as mãos, comentei:
 – Se a refeição estiver tão boa quanto o cheiro!... Não imaginei que gostasse de cozinhar.
 Sentando-se à mesa, Anastácio, procurando conter o seu entusiasmo, disse:
 – E não gosto, mas precisava ocupar-me de algum modo. Conte-me como foi a sensação de respirar sua primeira história neste lugar.
 Eu respondi sorrindo:
– Plena. Não existe outra forma de descrevê-la. Ouça, quando chegamos, eu tomei a liberdade de contar as flores. Você acredita que amanhã aparecerá mais uma?
Ele afirmou:
 – Certamente. E você estará aqui para vê-la. Está muito tarde para voltarmos. Amanhã, se você não tiver outro compromisso, eu gostaria que caminhasse comigo pela propriedade. Precisamos visitar os outros jardins. Você já se perguntou qual será a duração das flores?
 Respondi:
 – Para ser sincero, não. Mas posso arriscar um palpite.
 Anastácio incentivou-me a continuar:
 – Por favor, fale. Nada do que disser parecerá tolice. Somos amigos, e amigos têm a liberdade de dizer o que pensam. A propósito, daqui a uma semana haverá o Encontro Anual dos Contadores de Histórias. É uma boa ocasião para nos reencontrarmos. Só lhe peço sigilo, porque não podemos permitir que esta história venha à tona. Se algum dia você quiser contá-la, deverá ser como algo fictício; e, por favor, nunca mencione o meu verdadeiro nome. Se as pessoas acreditarem que é uma ficção, jamais procurarão o lugar. Agora me responda qual é o tempo de vida das flores que estamos ajudando a desabrochar.
 Aventurei-me a dizer:
 – Cada flor representa uma história. As histórias só morrem quando são esquecidas. Dessa forma, o esquecimento é a única erva daninha capaz de comprometer a saúde das flores. É o nosso dever contar as histórias para que elas não sejam esquecidas e as flores permaneçam sempre viçosas.
 Após alguns minutos de reflexão, Anastácio afirmou concordar com a minha teoria. O seu semblante estava sereno, e ele parecia satisfeito. Nada pode ser mais prazeroso a um contador de histórias do que se tornar o protagonista de uma história fascinante. Eu também estava felicíssimo. Talvez eu nem precisasse dizer que, na manhã seguinte, contemplei a minha flor com um prazer descomunal. É como Anastácio costumava dizer: “Só mesmo estando lá para saber como é agradável e revigorante respirar e cultivar histórias!”
 FIM DA 1ª PARTE (O CONTADOR DE HISTÓRIAS) DE
“REALIDADE MÁGICA - LIVRO 1”.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 - 1ª PARTE - CAP. IV

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. IV


Anastácio, ao acordar, sentiu falta da atmosfera que envolvia aquele lugar mágico. Queria voltar o mais rápido possível, mas primeiro teria que se desvencilhar daquele compromisso insípido. Deveria estar curioso para saber quem o aguardava próximo ao chafariz da praça; entretanto, o único sentimento que desabrochava em seu coração era a necessidade de respirar e compor novas histórias. Depois desse encontro, mudar-se-ia definitivamente para aquele lugar.
Por volta das 9h, Anastácio chegou à praça e sentou-se ao meu lado no banco próximo ao chafariz. Ele olhava em minha direção com o semblante carregado e só faltou pedir-me que deixasse o banco e fosse sentar em qualquer outro lugar. Minutos depois, comentou:
– Eu espero alguém. E você, o que faz aqui sem o seu caderno de anotações?
Uma pergunta direta merecia uma resposta igualmente direta:
– Também espero alguém.
 Após consultar o relógio várias vezes, ele teceu novo comentário:
 – Uma namorada, eu suponho. É por esse motivo que evito as mulheres. Odeio esperar, e elas parecem se divertir ao nos deixar esperando.
Foi a minha vez de dizer:
– Antes estivesse aqui aguardando a chegada de uma bela jovem. Receio ter sido vítima de um trote. Um sujeito maluco ligou para a minha casa ontem, perguntando se eu conhecia um senhor que o levou a uma propriedade que ficava a duas horas daqui. Tirando isso, não falava coisa com coisa, e eu não consegui entender mais nada.
A expressão inesperada em seu rosto deixou-me preocupado. Perguntei-lhe:
– O que há? Não está se sentindo bem?
Ele sorriu antes de perguntar:
– Qual é o número do seu telefone?
Tudo começou a fazer sentido, e eu exclamei:
– Não me diga que foi você quem ligou e marcou este encontro!...
Anastácio revelou:
– O homem que você afirma não conhecer pediu que me entregassem o número de seu telefone quando eu fosse ao cartório. Ele certamente esperava que nos encontrássemos por alguma razão. Ouça, engana-se ao dizer que não o conhece. Você já o viu nesta praça há alguns dias enquanto conversávamos. Você até mesmo parou de escrever para nos observar. Não se lembra?
Eu olhava para ele em busca das palavras que usaria para não ofendê-lo ao ter que desmenti-lo. Finalmente fui obrigado a dizer:
– Eu parei de escrever na última vez em que pude observá-lo fazendo anotações, porque achei interessante o modo como você atuava para caracterizar melhor o seu personagem. E posso afirmar que não havia ninguém ao seu lado: era apenas você e a sua imaginação.
Com o olhar incandescente, ele exclamou:
– Está zombando de mim!
Desconcertado, perguntei:
– Por que eu faria isso? Ouça, eu moro aqui perto. Gostaria de ir à minha casa para que pudéssemos conversar com mais privacidade?
Balançando a cabeça negativamente, ele disse:
– Não. Você irá à minha casa para que eu possa provar-lhe que não estou louco. Venha, posso mostrar-lhe as chaves, a planta, a escritura... Eu não imaginei tudo aquilo. Não posso ter imaginado!

Sisi Marques

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 - 1ª PARTE - CAP. III

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. III
Os dias se passaram velozmente, e as manhãs traziam as flores, frutos da inspiração contida nas histórias. Anastácio jamais se sentiu tão bem em toda a sua vida. Pensava estar sonhando e receava acordar. Cada flor possuía uma fragrância semelhante ao aroma da brisa que o envolvia antes de começar a escrever determinada história, e esta parecia ser a parte melhor: cada flor representava uma história, cada flor era única, e ele as amava. Como poderia deixá-las se desejava ardentemente que se multiplicassem? Lembrou-se do homem e sentiu remorso por tê-lo tratado tão mal. Precisava desculpar-se e decidiu ir ao cartório mais próximo para verificar a quem pertencia aquela propriedade.


 Mais surpresas aguardavam-no quando ele chegou ao cartório pedindo informações sobre o misterioso proprietário. Apanhando uma pasta com vários documentos, o funcionário respondeu:
 – A propriedade atualmente pertence ao “Sr. Anastácio”.
 Você já deve ter imaginado que não foi esse o nome que o funcionário do cartório mencionou. Na escritura da propriedade, estava escrito o seu nome verdadeiro. O funcionário do cartório não pareceu surpreso ao ouvi-lo dizer:
– Certamente houve um terrível engano. A propriedade não é minha; mas, sem sombra de dúvida, eu gostaria de comprá-la. Como posso entrar em contato com o proprietário?
 Pacientemente, o funcionário do cartório explicou:
 – Se o senhor é o Sr. Anastácio, basta apresentar-me um documento que comprove sua identidade e assinar aqui, para que eu possa entregar-lhe as chaves e a escritura. Não lhe será cobrada taxa alguma, porque todas as despesas já foram pagas no ato da doação. Caso o senhor não seja o Sr. Anastácio e esteja interessado em adquirir a propriedade, deverá entrar em contato com o Sr. Anastácio, porque só ele poderá autorizar a venda.
Com as mãos trêmulas, enquanto mostrava seu documento ao funcionário e preparava-se para assinar a escritura, Anastácio murmurou:
 – Eu não compreendo como posso ser dono da propriedade se nada paguei por ela.
 Bem-humorado, o funcionário exclamou:
– É realmente impressionante! Já ouvi dizer, e os documentos comprovam que o atual doador também não pagou nada por ela, e nem mesmo os dois proprietários anteriores. Essa propriedade enorme é sempre doada por razões desconhecidas.
 Despretensiosamente, Anastácio comentou:
 – Ela não é tão grande assim. Trata-se apenas de um terreno, aparentemente sem valor, com um chalé. Para mim, no entanto, ela tem valor inestimável.
 Discordando respeitosamente, o funcionário balançou a cabeça para os lados, antes de dizer:
 – Talvez o senhor não tenha tido a oportunidade de conhecer a propriedade como um todo. Além desse terreno que mencionou, existem outros sem construção alguma. Mas a satisfação maior virá de três terrenos cujas casas foram cercadas por agradáveis jardins. Se desejar, poderei acompanhá-lo até lá para lhe mostrar toda a propriedade. De qualquer modo, juntamente com a escritura, estou lhe entregando a planta atualizada e o molho de chaves.
 Um pouco atordoado pela avalanche de surpresas, Anastácio disse:
 – Muito obrigado, mas creio que não será necessário. Eu só gostaria de poder agradecer ao meu benfeitor. Não teria ele deixado algum endereço ou telefone para contato?
 O funcionário, solícito, apresentou um cartão e desculpou-se:
 – Perdoe-me o esquecimento. Ele deixou este cartão com um número de telefone para que lhe fosse entregue.
 Com o coração descompassado, Anastácio perguntou:
 – Eu poderia usar o telefone?
 O funcionário consentiu, e Anastácio segurou o fone e discou o número com as mãos trêmulas. Percebeu logo que a pessoa do outro lado da linha não conhecia o homem que lhe entregara aquele maravilhoso presente. Mas, ainda assim, ficou curioso em descobrir qual era a relação entre os dois. Certamente algum motivo haveria para aquele número de telefone ter chegado às suas mãos. Precisava desvendar o mistério e, para isso, marcou um encontro com o homem que, sem saber o que pensar, sem saber o que dizer, o ouvia pacientemente.
 Foi com imenso pesar que Anastácio, ao sair do cartório, em vez de retornar ao seu refúgio, dirigiu-se à sua casa, que ficava próxima à praça na qual ele marcara o encontro para a manhã seguinte.
Sisi Marques

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

LIVRO 1 – PRIMEIRA PARTE – CAP. II

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. II
Anastácio esquadrinhou o rosto daquele desconhecido que não media esforços para atraí-lo com sua fala mansa. Perguntou a si mesmo que mal haveria em segui-lo se ele não parecia representar perigo algum. Após breve e silenciosa reflexão, Anastácio aventurou-se a dizer:
– Está bem. Estou disposto a acompanhá-lo.
Exibindo um sorriso vitorioso, o homem disse:
– O carro está estacionado aqui perto; meu motorista nos levará até lá.
Após duas horas de viagem, o carro estacionou em frente a um terreno que pareceria abandonado se não fosse pela cerca, o portão, o banco e um chalé bem-cuidados. Quanto à terra, parecia seca, dura, inapropriada a qualquer tipo de cultivo. Dando vazão à sua raiva e frustração, Anastácio afirmou:
– Se me trouxe aqui para me empurrar esta terra improdutiva, perdeu o seu tempo porque não costumo jogar fora o dinheiro que herdei do meu pai. A resposta é não. Não comprarei esta propriedade sem valor no meio do nada!
Aparentemente confuso pela inesperada reação, o homem disse:
– Não sou um vendedor e não estou tentando empurrar-lhe coisa alguma. Só lhe peço que inspire o ar deste lugar com o coração. Sinta como a atmosfera está repleta de histórias. Sente-se naquele banco. Feche os olhos. Concentre-se e atraia uma delas. Deixe-a entrar em seu coração para que ela possa lhe revelar o seu aroma e a sua delicada trama.
Anastácio já começava a odiar-se por ter se deixado enganar quando, de repente, algo inesperado aconteceu: uma deliciosa brisa envolveu o seu coração, e ele se sentiu preso num doce devaneio. Fragmentos de uma história nova aglutinaram-se em sua mente, e o seu único desejo era: dar-lhe vida. Sem hesitar, ele sentou no banco, abriu o caderno de anotações, apanhou a caneta do bolso e começou a escrever.
Quando Anastácio terminou de reunir os pedaços da história, leu-a prazerosamente e, só então, olhou ao redor e surpreendeu-se ao verificar que já era noite, e não havia nem sinal do homem que o trouxera ali. Caminhou até o chalé e teve outra surpresa: a dispensa estava cheia; e o asseio, a disposição dos móveis e a quietude daquele lugar pareciam convidá-lo a estabelecer-se ali por alguns dias.

Na manhã seguinte, uma nova e agradabilíssima surpresa deixou-o de boca aberta e olhos arregalados: bem próximo ao banco, havia um canteiro de terra fofa e, nessa terra macia e úmida que aparecera do nada, despertara uma flor. Aproximando-se da flor, Anastácio pôde sentir sua fragrância e ficou extasiado ao perceber que era o mesmo aroma da brisa que o envolvera antes que ele começasse a escrever a história. Em seu coração, ele guardava a certeza de que a sua história dera origem àquele canteiro e àquela flor. Novas histórias viriam, e mais flores nasceriam naquele jardim.
Sisi Marques

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

CAÇA-PALAVRAS (PERSONAGENS)

Querido(a) Leitor(a),


Divirta-se, encontrando os nomes dos personagens da história Realidade Mágica, no caça-palavras abaixo:





Sisi Marques


Que os seus sonhos se realizem!!!

LIVRO 1 – PRIMEIRA PARTE – CAP. I

Livro 1 – 1ª Parte: O Contador de Histórias – Cap. I
Não posso revelar a identidade do protagonista desta história porque ele jamais perdoaria tal indiscrição. Desse modo, para evitar constrangimentos, usarei o nome Anastácio sempre que me referir a ele.
Tudo começou quando “Anastácio” estava sentado em um banco de jardim de uma praça pública, buscando as palavras certas para compor sua história. Naquela manhã, ele se sentiu embaraçado ao perceber que o homem de idade bastante avançada, sentado ao seu lado, o observava insistentemente. Cansado de ser o alvo daquele minucioso exame, ele parou de escrever e perguntou ao tal sujeito:
– Posso ajudá-lo de alguma forma?
O homem respondeu enigmático:
– Talvez possamos nos ajudar mutuamente.
Anastácio afirmou sem rodeios:
– Duvido muito. Peço-lhe a gentileza de me deixar em paz para que eu possa continuar o meu trabalho.
O homem permaneceu no mesmo lugar e continuou a encará-lo em silêncio. Anastácio, sentindo-se queimar por dentro, levantou-se. Perguntava-se como alguém poderia aparecer do nada e estragar completamente o seu dia. Parecendo ler os seus pensamentos, o homem disse:
– Eu não tenho nada a ver com a sua irritação e não estraguei o seu dia. É você quem estraga o seu dia todas as manhãs quando senta para escrever neste lugar estéril. Venha comigo para que eu possa mostrar-lhe um local mais adequado.
Anastácio sentou-se novamente antes de dizer:
– Não estou interessado. Por que não convida o otário sentado no banco em frente, que também estava escrevendo e agora parou para nos observar? Talvez ele tenha mais tempo e paciência para gastar com a sua intromissão.
Adivinhe só quem era o “otário sentado no banco em frente”? Acertou: era eu, Felizardo. Balançando a cabeça em sinal de desaprovação, o homem respondeu:
– Não. Já cheguei a pensar nele, mas receio que ainda não esteja pronto. Falta-lhe paixão, amor pelas histórias. Você, no entanto, precisa delas e as busca porque as ama: o seu coração respira histórias. Venha comigo. Você tem todo o tempo do mundo; mas, para mim, o tempo está acabando e se torna mais valioso a cada minuto.

Sisi Marques